Longe da figura isolada do artista, o estudante de Design da ESPM, Pedro Yudji, vivenciou no Japão uma rotina em que criação, convivência e território se articulam no cotidiano de uma residência artística.
Por Núcleo UX
Dez horas da manhã. Pedro Yudji pega uma das bicicletas disponibilizadas pela instituição e segue por pequenas estradas da região até o local de trabalho. O percurso faz parte da rotina diária, assim como uma atividade que antecede qualquer produção artística: a limpeza coletiva dos espaços.
Antes de desenhar, projetar, construir ou experimentar, os residentes organizam o ambiente que compartilham. O gesto pode parecer simples, mas ajuda a compreender uma das características centrais da experiência vivida por Yudji no Japão: a criação artística não acontece isoladamente. Ela está inserida em uma dinâmica coletiva que envolve responsabilidades comuns, convivência e participação ativa na manutenção da comunidade temporária formada pela residência.
Durante sua estadia, o artista brasileiro encontrou uma estrutura distante da imagem frequentemente associada às residências artísticas internacionais. Não havia um ambiente de isolamento criativo nem uma programação voltada para a figura do artista como indivíduo excepcional. O foco estava no cotidiano: trabalhar, conviver, circular pelo território e compartilhar experiências com pessoas vindas de diferentes lugares.
UMA JORNADA TÍPICA
10h00 – Início oficial das atividades
10h00–10h30 – Limpeza e organização coletiva dos espaços
12h00 – Intervalo para almoço
15h30 – Pausa para café
18h00 – Encerramento oficial das atividades
Noite – Convívio na residência e atividades informais
A rotina era estruturada, mas sem rigidez excessiva. Existiam horários definidos e responsabilidades compartilhadas, porém os residentes mantinham autonomia sobre seus processos criativos e sobre a forma de organizar o próprio trabalho.
Dois espaços, uma mesma comunidade
A residência contava com dois ambientes principais de produção. O primeiro funcionava como escritório e espaço de atividades cotidianas. O segundo era o Maxima, um galpão maior localizado a cerca de vinte minutos de bicicleta.
O deslocamento entre os dois espaços acontecia diariamente. Mais do que uma questão logística, a bicicleta tornava-se parte da experiência de imersão no território.
“A gente ia com a bicicleta, que era bem mais rápido.”
O trajeto permitia observar o ritmo local, as mudanças de paisagem e aspectos da vida cotidiana que dificilmente seriam percebidos dentro dos limites do estúdio. Em programas de residência, esses deslocamentos frequentemente acabam influenciando o processo criativo tanto quanto as atividades planejadas.
A própria configuração física dos espaços refletia uma lógica de simplicidade operacional. Não havia uma infraestrutura excessivamente sofisticada. Os recursos eram suficientes para o trabalho, mas a ênfase estava menos nos equipamentos e mais na experiência de produção e convivência.








Fotos: acervo pessoal Pedro Yudji
O valor do cotidiano
Um dos aspectos que mais chamaram a atenção de Yudji foi a naturalidade com que as tarefas ordinárias se integravam à experiência artística.
Em muitos contextos, a produção criativa é apresentada como uma atividade separada das obrigações práticas do dia a dia. Na residência japonesa, a lógica parecia ser oposta. Limpar, organizar, cozinhar ou circular pelo bairro não eram interrupções do trabalho artístico. Faziam parte dele.
Essa integração entre vida cotidiana e criação contribui para reduzir a distância entre o artista e o ambiente que o cerca. Em vez de criar uma bolha de produção, a residência favorecia uma relação contínua com o território e com os demais participantes.
O intervalo do almoço
Ao meio-dia, os residentes tinham uma hora de pausa.
Não existia um ritual coletivo obrigatório para as refeições. Cada participante encontrava a forma mais conveniente de organizar esse momento. Em muitos dias, Yudji recorria às tradicionais lojas de conveniência japonesas, conhecidas como konbini.
“Eu pegava alguma coisa na loja de conveniência, alguma marmita.”
As konbini ocupam um papel importante no cotidiano japonês. Encontradas em praticamente qualquer região habitada, oferecem refeições prontas, lanches, bebidas e diversos serviços. Para quem está em uma rotina intensa de trabalho, representam uma solução prática e acessível.
Ainda assim, o almoço não era um elemento central da experiência. Tratava-se simplesmente de uma pausa dentro do fluxo do dia, sem o peso simbólico ou social que outros momentos de convivência assumiam na residência.
A convivência que acontece depois do expediente
Se o almoço era um momento funcional, as horas após o encerramento das atividades oficiais assumiam outro significado.
Ao final da tarde, os residentes retornavam aos espaços compartilhados da casa. Era nesse período que surgiam conversas mais longas, trocas sobre projetos em andamento, discussões sobre arte e relatos de experiências pessoais.
As residências artísticas costumam ser definidas como espaços de produção cultural. Na prática, porém, elas também funcionam como ambientes de formação de redes profissionais e afetivas. Muitos dos aprendizados acontecem fora dos estúdios, em momentos informais.
Nesse contexto, cozinhar eventualmente para outras pessoas tornava-se mais um gesto de convivência do que uma tarefa organizada.
“Eu geralmente cozinhava alguma coisa… fazia para mais pessoas.”
Yudji destaca que isso acontecia ocasionalmente. Não havia um “cozinheiro da residência” nem uma divisão formal de papéis. As iniciativas surgiam de maneira espontânea, conforme o interesse e a disponibilidade de cada participante.
As refeições compartilhadas funcionavam como pontos de encontro entre artistas com formações, nacionalidades e repertórios distintos. Ao redor da mesa, surgiam conversas que dificilmente aconteceriam dentro de um ambiente formal de trabalho.
Tempo para explorar
Embora existisse uma programação estruturada, os participantes também tinham margem para explorar outras regiões do país.
Era possível solicitar folgas e organizar viagens, desde que houvesse comunicação prévia com a instituição. Para Yudji, essa flexibilidade ampliava o alcance da experiência.
“Dava para viajar e visitar outras partes do Japão.”
A possibilidade de circular por diferentes cidades permitia entrar em contato com contextos culturais variados e ampliar referências visuais, arquitetônicas e sociais. Em programas de residência, esse tipo de deslocamento frequentemente desempenha um papel importante na formação do repertório dos artistas.
Uma residência feita de relações
Ao observar a experiência de Pedro Yudji, chama atenção o fato de que os aspectos mais marcantes não estão necessariamente ligados à produção de uma obra específica.
O que emerge do relato é uma experiência construída a partir de relações: a limpeza compartilhada, os trajetos de bicicleta, as conversas após o expediente, os encontros ocasionais na cozinha e a convivência diária com pessoas de diferentes origens.
A residência artística aparece, assim, menos como um espaço de isolamento criativo e mais como uma pequena comunidade temporária. Um lugar onde o trabalho artístico acontece simultaneamente à construção de vínculos, à observação do território e à participação em uma rotina comum.
Longe da imagem solitária do criador, o estudante de Design da ESPM, Pedro Yudji, encontrou no cotidiano compartilhado de uma residência artística no Japão uma experiência em que trabalho, convivência e território se entrelaçam. A vivência foi viabilizada por uma parceria institucional entre a Japan House São Paulo e a ESPM, firmada em agosto de 2022, que passou a incentivar a cooperação acadêmica com instituições japonesas e abriu caminho para a participação de estudantes brasileiros na residência artística sandwich, em Kyoto, organizada pelo artista Kohei Nawa. O acordo, voltado prioritariamente ao curso de Design, insere a experiência individual em uma estratégia mais ampla de internacionalização e intercâmbio cultural.

