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O Design na Era da Automação Semântica: Os Desafios de UX frente à Inteligência Artificial

XII TOI debate os limites da cognição humana, governança de dados e os novos fluxos de trabalho híbridos em ambiente corporativo e acadêmico

O processamento manual do fluxo informacional tradicional — no qual o dado organizado transforma-se em informação, consolida-se como conhecimento e gera inteligência estratégica — tornou-se inviável diante do atual volume de dados digitais. A inteligência artificial (IA) deixou de ser uma projeção teórica para se consolidar como infraestrutura operacional obrigatória no Design de Experiência do Usuário (UX) e na Ciência da Informação, forçando uma revisão profunda nas competências profissionais e nos modelos pedagógicos. Essa transformação metodológica centralizou os debates de especialistas e pesquisadores durante o Simpósio “UX com IA”, um dos eixos temáticos do XII TOI – Congresso Internacional de Organização da Informação.

Integração Institucional frente à ruptura setorial

Realizado na ESPM, o simpósio materializou uma cooperação institucional estratégica com a Universidade de São Paulo (USP). A iniciativa, cuja origem remonta a 2014 por meio de uma parceria entre os professores Francisco Carlos Paleta (USP) e Charlley Luz (docente e consultor), foi concebida como um fórum permanente para conectar a discussão acadêmica aplicada à Ciência da Informação às demandas reais do mercado. Reunindo um público composto por estudantes, novos designers e especialistas do setor, o encontro deste ano utilizou um modelo híbrido para integrar a audiência presencial e a transmissão online global, consolidando-se como um polo de debate sobre os impactos econômicos e metodológicos da automação digital.

O problema central que mobiliza o setor reside na velocidade dessa transformação. Como anfitrião e mediador do simpósio, o professor Charlley Luz caracterizou o atual cenário como uma ruptura de paradigmas, recorrendo ao conceito do “tesarac” (de Shell Silverstein) para ilustrar um momento em que as práticas de UX e as grades curriculares acadêmicas precisam de atualizações em ciclos semanais para não se tornarem obsoletas face ao ritmo de lançamento de novas ferramentas computacionais.

Modelos híbridos de trabalho e a lógica do “Design Centauro”

O desenvolvimento temático do evento evidenciou que a inteligência artificial reorganizou a divisão de trabalho entre humanos e sistemas algorítmicos. Rafael Chaves, gerente de UX na área de tecnologia no mercado corporativo, estruturou sua análise sobre a sobrevivência do designer em torno de três eixos fundamentais: o ser relacional, a intuição e a presença significativa.

Para contextualizar o impacto da IA no design, Chaves utilizou a metáfora do xadrez, relembrando o trauma vivenciado pelo esporte em 1997, quando o campeão mundial Garry Kasparov foi derrotado pelo supercomputador Deep Blue. Da mesma forma que o xadrez não foi extinto, mas evoluiu para a prática do “xadrez centauro” — onde a partida é jogada por uma combinação cooperativa entre homem e máquina —, o design migra para um modelo focado na cocriação.

Sob essa lógica, a automação altera o perfil de competências exigidas pelo mercado. Chaves compartilhou a aplicação prática desse conceito em sua rotina corporativa, onde instruiu sua equipe de redatores a migrarem de funções tradicionais de escrita para se tornarem especialistas em engenharia de comandos (prompts). Esses profissionais passaram a atuar como agentes de transformação digital internos, apoiando departamentos historicamente distantes do ecossistema de design, como as áreas jurídica e de recursos humanos, na resolução de problemas operacionais por meio de ferramentas generativas.

Research Ops: governança e eficiência em escala

A infraestrutura que sustenta o volume massivo de dados de pesquisa gerado nas corporações foi debatida sob a ótica de Research Ops (Operações de Pesquisa). A especialista Natasha Bueno trouxe ao simpósio a perspectiva de otimização de processos, controle de impacto financeiro e ganho de eficiência dentro das equipes de design.

Com formação em Arquivologia, Bueno demonstrou como os conceitos clássicos da organização documental, classificação e indexação são vitais para estruturar repositórios modernos de UX. A inteligência artificial, conforme apontado em sua contribuição, atua diretamente na otimização de fluxos de trabalho repetitivos através de aplicações que já integram o cotidiano das empresas.

O uso prático dessas tecnologias inclui a transcrição automatizada de entrevistas de profundidade, a taggagem (etiquetagem) inicial de dados qualitativos em larga escala e a categorização ágil de grandes volumes de relatórios de usuários. A automação dessas etapas operacionais reduz custos e acelera a extração de insights de mercado. No entanto, o debate ressaltou que essas ferramentas dependem de uma fundação semântica e taxonômica robusta; sem uma modelagem de dados prévia, os sistemas generativos tendem a produzir análises superficiais ou inconsistentes.

Limitações cognitivas e a crítica da “Caixa Preta”

A transição para a automação total, contudo, enfrenta resistências teóricas e metodológicas fundamentadas na ética e na ciência cognitiva. O professor André Rosa de Oliveira introduziu uma perspectiva crítica ao analisar a perda de autonomia do designer diante de sistemas tecnológicos opacos. Inspirado na filosofia da tecnologia de Vilém Flusser, o docente abordou o conceito de “caixa preta”, alertando que o profissional de design que opera ferramentas de IA sem compreender seu funcionamento interno corre o risco de ser instrumentalizado e consumido pela lógica do próprio programa.

O professor André formulou, ainda, uma hipótese sobre os impactos dessas ferramentas no desenvolvimento intelectual, apontando para a deterioração da “fricção da carga cognitiva”. A facilidade e o imediatismo com que as IAs fornecem respostas prontas tendem a eliminar o esforço mental necessário para a construção de conexões neurais autênticas e para o aprendizado profundo. O pesquisador traçou um paralelo com o hábito tradicional de sintetizar e registrar informações manualmente como método essencial para a fixação duradoura da memória e do conhecimento técnico.

Em consonância com a crítica aos excessos da automação, o designer Felipe Accorsi, trazendo uma bagagem de 21 anos de atuação no setor, defendeu a necessidade de uma postura mais lenta, reflexiva e intencional por parte dos profissionais. Accorsi enfatizou que, independentemente de se utilizarem métodos tradicionais ou inteligências artificiais, as decisões de design carregam implicações éticas que afetam vidas reais, como a subsistência de pequenos empreendedores.

Perspectivas para a formação e o mercado de UX

O encerramento analítico do simpósio evidenciou um ponto de convergência entre os discursos da academia e do mercado: a inteligência artificial, embora transforme radicalmente a execução técnica, carece de propósito autônomo e permanece dependente da intencionalidade humana. O diferencial competitivo dos novos profissionais desloca-se da operação de softwares para o desenvolvimento de um repertório crítico, humanista e extraprofissional.

Conforme sintetizado pelos debatedores Accorsi e Chaves, o espaço de mercado continuará aberto para designers que consigam priorizar a resolução de dores humanas reais por meio de uma conexão empática e artesanal com o usuário. A sustentação da criatividade e da capacidade analítica em ambientes altamente automatizados dependerá, essencialmente, da preservação do julgamento crítico e das vivências pessoais dos profissionais fora do ambiente corporativo, consolidando a IA como um suporte técnico e não como um substituto da cognição humana.

Simpósio UX com IA

A sessão do simpósio está gravada e disponivel aqui.

Com informações do Núcleo de UX ESPM: Thamy Echigo, Giovana Dinkelmann, Allan Winter Machado, professora Vilma Vilarinho, professor Charlley Luz.

Veja como foi a oficina no segundo dia.

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