A Aula Magna inaugural do curso de Design da ESPM trouxe ao centro do debate uma questão cada vez mais relevante para profissionais e pesquisadores da área: como projetar futuros em um mundo marcado por rápidas transformações tecnológicas, sociais e culturais.
Conduzida por Mário Rosa, a palestra abordou o conceito de Design de Futuros e destacou a necessidade de superar o que chamou de “armadilha do curto prazo”, característica de organizações e indivíduos que concentram esforços apenas em demandas imediatas, limitando sua capacidade de inovação e transformação.
Ao longo da apresentação, Rosa argumentou que a imaginação não deve ser compreendida apenas como um exercício criativo, mas como uma competência estratégica. Segundo ele, a capacidade de imaginar cenários futuros permite ampliar horizontes de decisão e preparar instituições para contextos que ainda estão em formação.
“A imaginação deixa de ser apenas inspiração e passa a se tornar estratégia”, destacou.
Como exemplo histórico dessa lógica de projeção de longo prazo, a palestra relembrou o Projeto Apolo, programa espacial norte-americano que mobilizou ciência, tecnologia e design a partir de uma visão clara de futuro, transformando uma meta inicialmente considerada improvável em realidade.
Sentir o futuro antes que ele exista
Entre os conceitos apresentados esteve o de Futuretainment, abordagem que propõe criar experiências capazes de permitir que as pessoas “sintam” o futuro antes que ele se torne real.
Nesse contexto, narrativas, protótipos, cenários e experiências imersivas atuam como instrumentos para revelar possibilidades e gerar relevância para temas ainda emergentes.
A discussão também abordou ferramentas associadas ao foresight estratégico, prática voltada à antecipação de tendências, e ao design especulativo, campo que utiliza projetos para questionar hipóteses e explorar possíveis consequências de transformações tecnológicas e sociais.
O design como agente de transformação
Um dos princípios centrais destacados durante a Aula Magna foi a compreensão do design como atividade orientada à mudança.
A partir das reflexões do teórico Herbert Simon, foi apresentada a definição de que:
“Design significa transformar condições existentes em condições preferíveis.”
A discussão ressaltou ainda uma distinção fundamental entre design e ciência:
“A diferença entre o design e a ciência está fundamentada no fato de que o design lida primordialmente com o que ainda não existe, enquanto a ciência explica o que já existe. Os cientistas descobrem as leis que governam o mundo na realidade atual, enquanto os designers inventam um futuro diferente.”
Sob essa perspectiva, o design deixa de ser entendido apenas como solução de problemas e passa a atuar como ferramenta para imaginar alternativas e provocar reflexões sobre os rumos da sociedade.
Outra ideia apresentada por Mário Rosa reforça esse papel crítico da disciplina:
“O design não deve apenas refletir o mundo como ele é, mas também desafiá-lo, oferecendo alternativas que inspirem debate e discussão.”
Pensar futuros para questionar o presente
As discussões da Aula Magna mostram que o design especulativo trabalha menos com respostas definitivas e mais com perguntas relevantes.
Questões como:
Que futuros estamos projetando ao desenvolver novas tecnologias?
Quais valores e comportamentos estão sendo incorporados aos sistemas que criamos?
O que acontece quando uma possibilidade tecnológica deixa de ser hipótese e passa a organizar práticas sociais?
Como o design pode tornar visíveis futuros que ainda não conseguimos perceber?
foram utilizadas para ilustrar como a área pode contribuir para debates contemporâneos envolvendo inteligência artificial, algoritmos, dados, plataformas digitais e novas formas de interação.
Nesse sentido, o design especulativo não precisa necessariamente gerar uma solução concreta. Seu resultado pode assumir a forma de um cenário, uma narrativa, um artefato ou uma experiência capaz de estimular reflexão crítica e debate público.











Ao encerrar a Aula Magna, ficou evidente que pensar o futuro é também uma forma de compreender o presente. Mais do que perguntar apenas “como fazer?”, o design de futuros propõe uma questão ainda mais ampla e estratégica: “que futuro estamos ajudando a construir ao fazer isso?”
A reflexão marca o início das atividades do semestre no curso de Design da ESPM e reforça a importância do pensamento crítico e prospectivo na formação de profissionais capazes de atuar em contextos cada vez mais complexos e incertos.


